quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Da visão sob Stella Adler, segundo seu livro “Técnica da Representação Teatral”, como fonte de pesquisa teatral, segundo investigação cênica de Lúcio Leonn

Imagem\fonte\visite: http://www.stellaadler.com/about/history/

Para Stella Adler (1901-1992) o objetivo do seu livro é contribuir para dar ao intérprete procedimentos técnicos e levá-lo a imersão com alma e ofício que ela considera: “ser uma totalidade de coração, mente e espírito – uma arte que libera ideias e, agindo dessa forma, transforma o ator num instrumento de propósito artístico”. A propósito, um bom intérprete pode seguir lutando por esse ideal. Afirma-nos.

Tornar evidente quanto às opiniões do dramaturgo e eficaz ao expressá-las é obrigação de todo o intérprete da cena. Ele não deve ocupar-se de opiniões do autor fortuitamente. Necessita progredi-las de maneira que sejam do Homem. As ideias conservam as boas-fés pelas quais as pessoas tendem a existir. Essas boas-fés são comunicadas pelo intérprete cênico. Por esta razão, ele se transforma num partícipe essencial da sociedade que colaborou para o mundo contemporâneo.

Por um lado, Stella Adler não faz somente uma autocrítica quanto às atitudes de muitos atores americanos na distorção e no uso do sistema de Stanislavski, propriamente o “Método”. Tanto que defende no seu livro com o seguinte ponto de vista: “O objetivo da técnica que ora enfatizamos é afastar o ator daquelas técnicas antiquadas ou que foram usadas com abuso em nome de Stanislavski” (Capítulo 12 – A contribuição do ator – ADLER, 2008, p.173). E nesse meio tempo, após ter atuado e dirigido no teatro americano, teve a oportunidade de estudar pessoalmente com ele em Paris, ano de 1934.

Nos momentos que atuava, Adler começou a lecionar e dirigir, na intenção de distorcer o que criaram acerca do sistema do Mestre. Seu ensino era e é baseado não apenas nas ideias do mestre russo, mas igualmente num método natural que está acessível a todos.

Por outro, críticas de como os atores americanos menosprezam muito o valor de sua consciência coletiva; a vaga opinião do que seja tradição. Além da alienação dos Estados Unidos com o entorno do mundo ocidental, sem interligação intertranscultural; o abandono de toda tradição e de todo o sentido histórico; e, no trabalho teatral um mal se abateu aos atores quando lhes persuadiram que teriam que se ensaiar na cena ao invés de experimentar as circunstâncias dadas.

Outro instante de atuação, apontado por Stella nos atores americanos, é que eles têm terror de grandiosidade. “Quando às ideias do autor são universais e épicas, o ator se retira. Tem medo de exagerar. Traz as ideias do autor para seu nível mais simples, que ele chama de ser real no palco”. Nos sinaliza Adler (p.156).
Levando tudo isso em consideração, numa das páginas do volume para concluirmos; Stella indica que o jogo da sobrevivência no meio de tudo isso está em você valorizar o que você guarda de conhecimento adquirido e, somente assim poderá assumir um grau de envolvimento com seu ego. (Releituras de compilações minhas seguindo os trechos de seu livro, p.18-19; p.39; p.58; p.174-175.).

Por fim, sem darmos igualmente muita vazão ao movimento de multiculturalismo norte-americano ou o etnocentrismo ou preconceito contra estrangeiros, em contraponto, se levarmos em conta a diversidade cultural ou campo de atuação (escolas de teatro\ensino-aprendizagem\atores e atrizes) no Brasil; além de tentarmos reescrever aqui que: “[...] ‘os equívocos referentes à Stanislavski tenham sido bem menores, possivelmente devido à presença de Eugênio Kusnet entre nós. [...] Kusnet, entretanto, não chegaria a atingir as proporções que o Método de Strasberg teve nos Estados Unidos. [...]’” (Rizzo p. 57). Vide suptópico “Breve visão de Jogo(s)\(teatrais), segundo Stanislavski\Brecht, Capítulo 1,  (In LUCENA, 2012, p.19).

Logo, estamos em vista de interface ou obra já publicada, “Ator e Estranhamento: Brecht e Stanislavski, segundo Kusnet” (Rizzo 2001 p. 54-57) que nos revela como o Actor’s Studio conseguiu (no mundo ocidental) grande aceitação a partir do sistema de Stanislavski; dentre outros procedimentos pessoais de professores, difundi-lo erroneamente, através dos Estados Unidos.

Então, tal terceiro mestre (Eugênio Kusnet, "Ator e Método", 1975) ou, o que ora ressaltamos sobre a obra de Stella Adler (atuação\direção)\pedagógico), é o que torna a seleção relevante dentro dum contexto atual de ensino ou na busca de uma abordagem. “E não uma técnica, de imediato”. Ressaltamos.

O Livro Eugenio Kusnet - Ator e Método – lido por Wagner Moura [à venda] por R$ 300,00¹

















Sem dúvida a escolha do livro de uma atriz, antes de tudo professora nascida em Nova Iorque e filha de atores “tradicionais” da América; se deu justamente por esse olhar desbravador de artista\educadora tendo à frente todo o ensino e pensamentos absortos de Constantin Stanislavski. No entanto, da prática metodológica de Stella Adler na tentativa de continuar exercendo um Teatro sob a dimensão da verdadeira arte de atuar e, na especificidade de cada influente professor (a); seu aluno-ator\atriz – ambos num curto tempo e espaço breve da vida; se o personagem for “bem interpretado” permanecerá maior que a Vida (memorial pessoal – vida teatral\profissionalmente): Alteridade.

Observamos (Adler, 2008) seu relevante ponto de vista.


O ator de hoje precisa ser ajudado. Aqui, a influência do professor é muita específica. Ele orienta o ator quando este começa a trabalhar com ideias. O esclarecimento do texto, o entendimento do personagem, do estilo, da linguagem, do ritmo da peça – estimulam o ator a experimentar a vida e o estilo do dramaturgo. [...] A arte de ensinar deve ter um alicerce forte. Meu ensino era e é baseado não apenas nas ideias de Stanislavski mas também num sistema natural que está ao alcance de todos. Atuar é um trabalho obstinado, necessitando de atenção constante e de planejamento rigoroso. Não é algo para gênios. É para pessoas que trabalham passo a passo. (In Introdução. Tópicos: o ator e a profissão p.16; o impulso de representar     p.19).


Por um aspecto metodológico, “tornou-se essencial sua fundamentação teórica. Adquiriu neste trabalho (TRAJETÓRIA, PROJETOS E TEATRO: APONTAMENTOS MEMORIAIS DA FORMAÇÃO ARTÍSTICA E ACADÊMICA DE UM PROFESSOR/ATOR²) um caráter técnico exemplificador (conjuntamente, investigativo), porque teve tudo a ver com a pesquisa e tema (pedagogia do teatro\direção teatral), em destaque”. Enxerto meu.

No mais, poderíamos ir direto ao ponto: três livros básicos publicados pelo mestre, “A Preparação do Ator\A Construção da Personagem\A Criação de um Papel” que, estudados com afinco por todo estudante de curso de arte-dramática (o que se espera pelo menos uma leitura de cada) poderíamos aprofundar seu teor referencial via fundamentação teórica. Mas, o que está em voga é a experimentação sistemática de olhar prático em grupo, liderado por aqueles professores (as) que sobreviveram aos “erros e acertos” junto ao sistema stanislavskiano século passado.  E, Stella Adler se ressalva como uma dessas pessoas de passagem\espaço de seu tempo ao nosso.

Fontes consultadas
ADLER, Stella. Técnicas da Representação Teatral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

KUSNET, Eugênio. Ator e Método. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro - Ministério da Educação e Cultura, 1975.

LUCENA, Lúcio J. A. (Lúcio Leonn) - Trajetória, Projetos e Teatro: Apontamentos Memoriais da Formação Artística e Acadêmica de Um Professor/Ator. 2012. 62f. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura em Teatro) – Universidade de Brasília (UnB). Instituto de Artes(IdA), Brasilia\Fortaleza, 2012.

RIZZO, Eraldo Pêra. Ator e estranhamento: Brecht e Stanislavski, segundo Kusnet. São Paulo: editora SENAC, 2001.

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¹http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-241496429-livro-eugenio-kusnet-ator-e-metodo-lido-por-wagner-moura-_JM


²Subcapítulo Construções de Cenas aos Levantamentos de Proposições Teatrais, a partir da análise sistemática e/ou comparativa - Stella Adler ao jogo teatral condicionado - ação (tempo e espaço): uma proposta de dimensão estética e pedagógica (pp.26-38). Disponível em: http://bdm.bce.unb.br/bitstream/10483/5295/1/2012_LucioJosedeAzevedoLucena.pdf

domingo, 27 de janeiro de 2013

“O Marinheiro - Uma Aventura Interior”: Mergulho Profundo no Sentido da Palavra [I Festival de Teatro de Jacareí (SP) de 22 a 28 de julho de 1996]

¹Hilton Viana (1996), por Lúcio Leonn (2013)

(Foto Erika Pontes)
“Tenho medo daquilo que você não chegou a dizer”. “Não sei. Não sei como é pertencer à vida”.
“Há mais presença aqui do que nossas almas”. “Não se deve falar demasiadamente. A vida espreita sempre”.
Em 1912 Fernando Antonio Nogueira Pessoa, publicou seus primeiros ensaios de crítica da moderna poesia portuguesa, na revista, “A Águia”, órgão do “saudosismo”.
Mas escreveu suas próprias poesias em língua inglesa, “Antinous”; “35 sonetos”, “14 Inscriptions, “Epithalamium”.
Os começos de sua poesia em língua portuguesa datam do encontro com os futuristas portugueses, José de Almada Negreiros, Santa Rita Pintor e outros.
Seu ano decisivo é 1914. Nasceram os três primeiros “heterônimos”. Personalidades definidas, às quais atribuiu à autoria de suas poesias em três estilos diferentes. Alberto Caeiro é um poeta de sensações e observador irônico da vida. Autor de poesias, como os ciclos: “O Guardador de rebanhos” e “Poemas Inconjuntos”. Álvaro de Campos, influenciado por Whitmam, é o cantor da cidade moderna e de técnica: “Ode Triunfal”, “Ode Marítima”, “Tabacaria”. Ricardo Reis é autor de bucólicas e elegíacas obras. As poesias que assinou com seu próprio nome são mais emocionadas.
(capa folder\arquivo pessoal)
Em Fernando Pessoa, a possibilidade de fingir, explica a alternância entre hermetismo e simplicidade. Em vida, apenas foi reconhecido pelos círculos limitados da boemia literária de Lisboa. Só quando seu volume “Mensagem” recebeu prêmio oficial, por ser erroneamente interpretado como manifestação do nacionalismo do regime, começou em Portugal a discussão em torno do poeta, que até hoje não terminou. A publicação iniciada por Luis Montalvor, iniciou a fase da influência da poesia de Fernando Pessoa sobre várias gerações e, de um modo especial no Brasil.
“O Marinheiro - Uma Aventura Interior” em oportuno momento chega até nós pelo elenco da Cia Teatro Lua de Fortaleza. Com direção e concepção de Ueliton Rocon, o espetáculo nos transporta para o mundo de três irmãs em momentos de solitárias reflexões e vivenciando três gerações.
Emolduradas por um figurino de grande efeito e um cenário simbolista, magnificamente belo, o elenco prima pela técnica e interpretações primorosas.
Leir Pontes, Lúcio Leonn e Ceronha Pontes, intermeiam suas criações, numa valorização constante, revelando o infinito sentido das palavras. Belas coreografias de Roberto Maur que participa também do espetáculo. Um primor de encenação, já inspirando outros grupos. 

Imagem (arquivo pessoal): Ceronha Pontes, Lúcio Leonn e Leir Pontes
O Texto original\arquivo pessoal

¹Sobre Hilton Viana
Crítico - Jornalista, ator e intérprete de poesias. Começou a fazer Teatro sob direção de Beatriz Segall, ao lado de Araci Balabanian e outros. Ingressou a seguir na EAD|USP. Como ator trabalhou com Ruth Escobar, Maria Della Costa e Lélia Abramo. Em 1962 editou uma revista voltada às Artes Cênicas, “Atualidades Teatrais”, mais tarde transformada em livro. Foi convidado a trabalhar para o Departamento de Estado Norte Americano, onde atuava como correspondente, tendo percorrido todo o pais analisando e abordando a Arte Cênica daquele país.  Foi editor dos “Associados” e colaborador na TV Tupi. Com um estilo jornalístico construtivo dedicou-se à análise e interpretação de textos; trabalhou ainda em várias cidades do interior de São Paulo e outros estados com o espetáculo solo “Poesia do Brasil”. Há mais de 21 anos em contato com a obra de Mário de Andrade estreou o espetáculo “Mário de Andrade: Cem anos de Comoção”. Realizou apresentações com poesias do autor de “Pauliceia Desvairada” e já escreveu para o jornal “Gazzetta d’Italia”. Atualmente é crítico do site www.teatrochik.com.br.
Ceronha Pontes _ prêmio Melhor Atriz do Festival

Serviço: (Quinta-Feira 25/07\1996)
Elenco:
Ceronha Pontes,
Leir Pontes, 
Lúcio Leonn,
Roberto Maur
Lúcio Leonn_prêmio Ator Revelação do Festival
Ficha Técnica
Diretor: Ueliton Rocon
Cenário, Sonoplastia, Figurino, Maquilagem, Arte Gráfica e Produção Executiva: Ueliton Rocon
Operadora de Luz\Apoio: Kátya Moreira
Coreografia e Assistente de Produção: Roberto Maur
Iluminação: Neto Brasil
Produção Executiva: Ana Angélica
Sonotécnica: Jorge Luis Viana
Assistente de Produção: Sonia Vitorino, Rap Costa, Manoel Façanha
Na foto: Neto Brasil,Ueliton Rocon, Ceronha Pontes,
Roberto Maur,Lúcio Leonn, Leir Pontes 
e, nosso sempre irmão, Jorge Luis Viana (In Memoriam)

Vide igualmente, em “O Marinheiro: Uma Viagem Interior” - Uma Montagem Cia. de Teatro Lua, (12\05\1993): 6º Festival Nacional de Teatro (Francisco Beltrão\Paraná): Crítica por Elie Mario Dfeterius (grego) & Sebastião Milaré, segundo a publicação (inédita) na íntegra de Lúcio Leonn (2011). Disponível em: http://notasdator.blogspot.com.br/2011/09/o-marinheiro-uma-viagem-interior.html)

domingo, 1 de abril de 2012

O I Simpósio Cearense de Artes Cênicas(1989) / Projeto Teatro em Obras: Theatro José de Alencar-TJA

“Fazer uma boa sociedade e depois, talvez façamos um bom teatro”, 
Jean Vilar (1912-1971).
Por Lúcio José de Azevêdo Lucena                                                                             Texto ano de 2002
Foto 01 (acervo pessoal da pesquisa de Lúcio Leonn) - O diretor Aderbal Freire Filho (à direita) ensaia os atores do espetáculo de reabertura do José de Alencar-Foto Divulgação/Jornal Diário do Nordeste, 17 de janeiro de 1991; Elenco (à esquerda, indicação minha): Suzy Élida, Dodô Mourão, Otávio Pires Neto, Carri Costa, Marcus Maciel, Silvana Salles e Ana Mangueth.

"Tudo era rigorosamente acertado com a direção de Aderbal Freire-Filho, nos trabalhos de mesa, como também, durante os ensaios e levantamentos de cenas" (Lúcio Leonn. Depoimento pessoal: mémórias de ator, 2002).

A Secretaria de Cultura, Turismo e Desporto do Ceará, encaminhou uma correspondência-convite para todos os artistas e demais interessados, em participar do “I Simpósio Cearense de Artes Cênicas”(1989). Logo, na gestão da secretária de cultura Violeta Arraes, o TJA encontrava-se fechado para reforma e ampliação de anexos. E um plano de ação estava sendo pensado, fazer jus a um programa inaugural de funcionamento do Theatro. Porém, das atividades realizadas (palestras) no referido seminário, percebemos que foi somente para atender ou preparar as expectativas de uma festa de reinauguração, ou seja, agregar artistas, discutir e planejar um suntuoso espetáculo que em breve seria realizado na cidade.

O Simpósio realizou-se no auditório do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno entre os dias 27 e 28 de dezembro de 1989, em dois tempos integrados, das l7 às 19h e de l9h 30min às 22h. As inscrições foram realizadas no Curso de Artes-Dramáticas da UFC-C.A.D, e na própria Secretaria de Cultura do Estado-Secult, começando com 08 (oito) dias de antecedência.

A maioria dos artistas envolvidos procedência do Curso de Arte-Dramática da UFC, e principalmente da “Oficina Théâtre du Soleil”, realizada em l988¹.

Contudo, somente 13 (treze) entre os atores e atrizes que participaram da também chamada oficina dos franceses (o número entra aqui como uma coincidência) e não aqueles (13), selecionados para repasse de técnicas na oficina realizada em Crato-Ce. Somente alguns deles continuaram com atividades cênicas no espetáculo do palco principal, ou seja, no Projeto Teatro em Obras: Theatro José de Alencar.

Além da promoção da Secult, contava o projeto com incentivo da extinta Fundacen-Fundação Nacional de Artes Cênicas, seguido de apoio da Federação Estadual de Teatro Amador/Festa, dos Grupos Permanentes de Dança, como também do próprio C.A.D.

Dos debatedores neste seminário foram indicados, Amir Haddad e Aderbal Freire-Filho, ambos diretores de teatro. O último, por sinal, ex-aluno da 1ª turma de concluintes do CAD, hoje um diretor brasileiro de renome.

Portanto, havia coordenadores também no trabalho reinaugural. Tanto que fora apresentado no Auditório o tal projeto, isto é, conjuntamente com os atores convidados, foi discutida e analisada a proposta, digo o objetivo principal. Ele se transformou na festa em prol do Theatro José de Alencar, do seu povo, da cidade e para com os seus artistas.

No entanto, conforme proposta estampada no folder do programa estava escrito assim:

“Quando da reforma do Theatro José de Alencar, teatro que guarda nossa história e nossos sonhos, aproveitamos o momento para refletir sobre a nossa produção artística. O I Simpósio Cearense de Artes Cênicas surge da necessidade de discutir o Projeto Teatro em Obras, que objetiva reunir artistas locais para compor um plano de reciclagem do movimento teatral cearense, ao mesmo tempo propiciar o intercâmbio de informações, na área de Artes Cênicas, com outras regiões do Brasil”(o grifo é meu. Documento pessoal).

Todos aqueles considerados artistas locais ou não passariam por reciclagem(como escrito no Folder). Pergunto: Esta reciclagem seria antes dos preparativos para a festa de reinauguração do Theatro José de Alencar? Aconteceu durante o processo de montagem do espetáculo reinaugural ou, posterior a tudo? Indago tanto para o espetáculo realizado nas ruas do centro da cidade como na Praça José de Alencar dirigido por Amir Haddad, e para encenação de Aderbal Freire-Filho no palco principal. Não se teve tempo para tal "capacitação". O tempo de montagem do espetáculo inaugural não permitia tal sistematização. Portanto, contava-se com o "fazer-fazer" junto às cenas. Já os atores mais experientes, estes sim, conseguiram perceber tal metodologia de trabalho. Como apontarei logo abaixo, quando me refiro ao trabalho realizado no galpão da RFFSA.

Então, contando com 02 (dois) dias em horários e datas acima, nós atores e atrizes tivemos como tema no simpósio os seguintes aspectos em debates:

“A capacitação do Artista e sua Função Social”
“As Artes Cênicas no Mundo Contemporâneo”
“O Significado Social do Espetáculo”
“A Conjuntura Política do Momento Brasileiro”.
Imagem documento original, 1989\ Acervo pessoal, Lúcio Leonn. 
Entretanto, no final do ano seguinte (1990), adentramos em atividades teatrais. Tal imersão no jogo teatral acontecera no galpão da RFFSA. Não aqueles hoje na Praia de Iracema, situados entornos do Centro Cultural Dragão do Mar, mas aquele próximo à Praça da Estação, na Rua 24 de Maio, S/N, no Centro da Cidade.
Sonho aquele da secretária de cultura Violeta Arraes em querer transformar os galpões antigos em espaços culturais/interativos em nome da cultura e de seus artistas locais, mas Violeta fez o que pôde.
Portanto, projetando o futuro nos arredores do Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar e seus anexos bem à la Française. Sem querer ser mais uma vez, pejorativo. Embora, existam muitos galpões desativados que poderiam funcionar caso houvesse apoio. Como foi o caso do Teatro Radical mantido pelo teatrólogo, ator, diretor e professor Ricardo Guilherme e Associação de Radicais Livres naquelas mediações, pois já não se freqüenta mais. Temos o Teatro da Praia e o Espaço Cultural “Calango do Açude”, de Carri Costa; além do Teatro da Boca Rica, da Cia. Boca Rica de Teatro. Mas, só quero aqui sinalizá-los.
No entanto, no “Dragão”, ainda não se tem espaço para seus atores ensaiar, ou até mesmo espaço de pesquisa para linguagem cênica. Além do custo da pauta de apresentação ser uma das mais caras da cidade em nível nacional-espaço este que se dizia ser democrático e solidário com a cultura e artista local, bem pouco antes de sua criação e oficialização em 1999.
Pôde-se comprovar quando cursava o Curso Colégio de Direção Teatral como aluno-intérprete no Instituto Dragão do Mar, pois era só o que se ouvia falar. A 1ª Turma praticamente inaugurou o Teatro Dragão do Mar com temporadas das peças: “Dragões no Horizonte I e II” (1998), em seguida mais seis meses de casa lotada, com a peça “Os Iks” (1999), de Peter Brook, sob direção de Celso Nunes.

Retomando ao ano de 1989... Lá no galpão (praticamente extinto nas atividades culturais da cidade), vindo a funcionar em 2002, como uma parte da exposição: “I Bienal Ceará América- de Arte Contemporânea”, o grupo de atores do mencionado Projeto, estudava e planejava a literatura cearense. Contava-se com 38 atores. Textos de Juvenal Galeno, Thomás Pompeu, Rodolfo Teófilo, Antônio Sales, Moreira Campos e outros.

Tais textos literários passaram à ação dramática, através de uma “découpage textual”. Isto mesmo, por parte dos atores, buscava-se a narrativa do teatro épico: a terceira pessoa, as rubricas de ações, etc; Outrora, preservava-se a interpretação na primeira pessoa, onde consistia viver o personagem na sua situação dramática, quando não, falava-se dele (personagem) expressando um certo distanciamento brechtiano, referindo-se ao uso do pronome ele.
Tudo era rigorosamente acertado com a direção de Aderbal Freire-Filho, nos trabalhos de mesa, como também, durante os ensaios e levantamentos de cenas.

Essas análises, estudos experenciados em dias e horas, conforme disposições do elenco resultaram no espetáculo noturno reinaugural intitulado: “Narração da Viagem Pela Província do Ceará”, ou “Observações de costumes, de usos, e até de palavras especialíssimas e de significação da população do Ceará”- tendo estréia em 26 de janeiro de l991, ocupando todo o palco principal do Theatro José de Alencar (ver Anexo 2- Elenco do espetáculo de reinauguração do Theatro José de Alencar/TJA: palco principal (1991), (p. 90)².
Com a reinauguração do T.J.A, a Casa proporcionou, posteriormente, uma abertura em séries de oficinas e cursos para aqueles que não podiam contar na época em atender às próprias exigências do C.A.D, (diploma do ensino médio, exame de seleção, etc), ou em outros cursos de instituições particulares.
Imagem documento original, 1989\ Acervo pessoal, Lúcio Leonn.

Contudo, é através de inúmeros projetos governamentais a partir de 1989 que se fizeram necessárias tal análise investigativa no campo teatral, no que diz respeito à aprendizagem e ao ensino não somente no sentido qualitativo, mas também no sentido de se ter um certificado válido. Foram criados, no início desse século, no campo das Artes Cênicas do ator de Fortaleza, projetos teatrais com raras exceções, sem grande importância quanto à legitimação. Como tantas outras tentativas na criação de uma escola por meio de projetos (Oficina Théâtre du Soleil, Projeto ECCOA, Projeto Encenação, Curso Colégio de Direção, etc), pois muda-se de governo, mobiliza-se gestão! É ai, onde pode morar a problematização. Quem “chega” deve olhar para o passado e perceber quem são os grupos que produzem teatro, estes originados de projetos anteriores? Qual tipo de assistência governamental, seus atores estão necessitando no mercado de trabalho? Que identidade tem o teatro cearense ao longo de tantos anos? Como tem sido a formação de seus atores, diretores?
Em minha opinião, tais gestores deveriam procurar atender e compreender o que é básico, de mais urgente na arte teatral cearense. Pensar assim diz respeito à legitimação, e “asseguramento” para atores, agentes de teatro nos cursos de capacitação, ou formação profissional. Isto é, sem deixá-los inseguros, por meio do mercado de trabalho formal. Ora pode habilitá-los, atribuindo-lhes a função de professores de Arte ou Arte-educadores conforme a nova legislação? (Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional- LDB nº 9.394\96) É o que podemos ver adiante nesta pesquisa. Logo tal artista de teatro, deve e pode também exercer sua profissão dignamente e com respeito, como outras profissões estabilizadas no mercado.
Portanto, chamo atenção para aquilo que não está funcionando corretamente. E traçar caminhos. Além de contribuir para possíveis resoluções. Acho que pode ser viável.
Continuando... Após a reforma do TJA, passamos a ensaiar nesse novo palco, enquanto que os espetáculos de Rua de Amir Haddad tornaram-se mais atuante.

Podemos constatar isto em entrevista concedida ao Jornal Diário do Nordeste, no dia 04.01.91, quando Haddad dizia: “... juntar ao ar livre, o que a tradição oral imprimiu na cultura - de Maracatu a Reisado”. Portanto, seu local de trabalho e pesquisa estava sendo a “rua”, (isto é, por meio do chamado: “Treinamento de atores participantes das festividades de Reinauguração do Theatro José de Alencar”, orientado também pelo “Grupo Tá na Rua/RJ”, realizado no período de 18 a 26 de janeiro, com carga horária total de 36h/aula).

Finalmente, pode-se dizer que todos os atores e demais profissionais engajados no Projeto Teatro em Obras receberam “cachê simbólico” pelos serviços prestados.

A década de 1990 foi o cerne e principal objeto de estudo dessa pesquisa. Dado o destaque para o ator em seu processo de formação teatral, utilizando cursos, projetos, palestras e oficinas pós-reinaugural no TJA (1991), que algumas vezes o autor deixou por aqui, entremear pelo discurso (IN Capítulo 2 - O teatro aprendiz no final da década de 1980, (pp. 41-44).).

Fonte: Fragmento da pesquisa: pós-graduação intitulada: Os Processos de Formação Teatral em Fortaleza na  Década de 1990 – Memórias de um Ator, (2002).
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¹Da seleção dos candidatos para Oficina Théâtre du Soleil no Brasil (CE), 1988 Da inclusão de candidatos na “oficina théâtre du soleil > Disponivel em: http://notasdator.blogspot.com.br/2008/09/oficina-thtre-du-soleil-no-brasilce.html

¹Memória do “Théâtre du Soleil”, oficina ministrada em Fortaleza/Ce-1988 > Disponível em: http://notasdator.blogspot.com.br/2008/11/memria-do-thtre-du-soleil-oficina.html

²Anexo 2- Elenco do espetáculo de reinauguração do Theatro José de Alencar/TJA: palco principal (1991). Disponível em: http://notasdator.blogspot.com.br/2012/04/o-i-simposio-cearense-de-artes.html

Elenco do espetáculo de reinauguração do Theatro José de Alencar/TJA:palco principal (1991)

Por Lúcio José de Azevêdo Lucena (Lúcio Leonn)

Foto 02 - Cena “Os Camelos” -Parte do espetáculo Reinaugural Palco Principal/TJA: “Narração da Viagem Pela Província do Ceará”, direção Aderbal Freire Filho; Registro (foto Ana Aragão) em 27 de janeiro de 1991.[Acervo pessoal do ator Lúcio Leonn] Figurinos Lino Villaventura, com: Ângela Escudeiro, Lúcio Leonn, Carri Costa,Domingos Alcantara, Marta Aurélia e Silvia Moura, outros.

Com o figurino do estilista Lino Vilaventura, iluminação de Jorginho de Carvalho, assistentes de direção, Betânia Montenegro e produção, João Andrade Joca, o espetáculo foi apresentado por Paulo Abel do Nascimento (atuaçâo em canto, como Antônio Conselheiro), Grupo Syntagma, pelo cantor e compositor Nonato Luís, “Cabecinha e Família” (grupo de música popular, composto por membros familiares), professor e maestro Orlando Leite, sob direção musical de Liduino Pitombeira.
nota: “O soprano Paulo Abel canta vestido de Antonio Conselheiro” - Foto (Ana Aragão, identificação minha) jornal O Povo- Caderno B- 28.01.1991_Reprodução minha, acervo pessoal
O Cearense Paulo Abel(nasceu em 1957- faleceu em Paris) 1992 [In memoriam]

Também, apresentado pelas atrizes e atores:
Aída Marsipe, Ana Mangueth, Ângela Escudeiro, Antônio Rodrigues, Arnaldo Matos, Ary Sherlock, Carri Costa, César Maier, Daniela Dumaresq, Dodô Mourão, Domingos Alcantara, Ercíla Menezes, Erwin Shroüder, Francisco Marques, Pedro Gonçalves, Graça Freitas, Jamila Coelho, João Falcão, Jório Nerthal, Lúcio Leonn, Marcos Amaral, Marcos Maciel, Marcus Miranda, Marta Aurélia, Neuza Gonçalves, Nonato Freire, Olga Paiva, Otávio Pires Neto, Rejane Reinaldo, Ricardo Guilherme, Robério Fefre, Rodger Rogério, Rogério Medeiros, Ronaldo Souza, Silvia Moura, Selma Santiago, Silvana Salles e Suzy Élida.

In Anexo 2. Elenco do espetáculo de reinauguração do Theatro José de Alencar/TJA: palco principal (1991), p.90. Fragmento da pesquisa de pós-graduação intitulada,"Os Processos de Formação Teatral em Fortaleza na década de 1990 – Memórias de um Ator" (2002).

(Fonte:  Folder de apresentação do espetáculo: "Narração da Viagem pela Província do do Ceará" ou “Observações de costumes, de usos, e até de palavras especialíssimas e de significação da população do Ceará”-, coletânea de textos da literatura cearense, sob direção de Aderbal Freire Filho. Arquivo pessoal. Fortaleza-Ce, 26 de janeiro de 1991.)
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Imagem - acervo pessoal Lúcio Leonn
Imagem - acervo pessoal 



















Vide: O I Simpósio Cearense de Artes Cênicas (1989) / Projeto Teatro em Obras: Theatro José de Alencar-TJA, em: http://notasdator.blogspot.com.br/2012/04/o-i-simposio-cearense-de-artes_01.html

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Mais sobre Paulo Abel em: http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Paulo+Abel&ltr=p&id_perso=1034




quarta-feira, 21 de setembro de 2011

“O Marinheiro: Uma Viagem Interior” - Uma Montagem Cia. de Teatro Lua, (12\05\1993): 6º Festival Nacional de Teatro (Francisco Beltrão\Paraná)

Crítica por Elie Mario Dfeterius (grego) & Sebastião Milaré (júri do Festival), segundo a publicação (inédita)na íntegra por Lúcio Leonn, (2011)

Premiações:
*Melhor Espetáculo (Juri oficial)
*Melhor Direção (Ueliton Rocon)
*Melhor Ator (Lúcio Leonn)
*Melhor Atriz (Sonia Vitorino)

“O trabalho analítico sobre o texto deu aos atores farto material dramático para suas composições “estáticas”. E assim, a idéia de “teatro estático” e o próprio poema de Pessoa revelaram sua teatralidade oculta. Toda a ação subjetiva, pelo poder de concentração e de expressão dos atores, passou ao nível de percepção, fazendo com que eles, mesmo imóveis fluíssem, passando ao espectador a impressão de um virtual movimento.” (Defterius & Milaré, 1993)

[Elenco: Ana Angélica de Almeida \ Lúcio Leonn \ Sonia Vitorino e Roberto Maur] Imagem e versão original

“O poema dramático de Fernando Pessoa, tão belo e vigoroso enquanto leitura, parece teatralmente descarnado, difícil de ser materializado no palco. Encantado com a poesia – como Ulisses com o canto das sereias – muitos encenadores aceitam o desafio de levar à cena O Marinheiro, quase sempre com resultados medíocres. No presente caso, contudo, o encenador Ueliton Rocon venceu o desafio e realizou um espetáculo onde o rigor estético está a serviço da compreensão do poema, transformando em imagens o indizível, fazendo relações cênicas que “materializam” as emanações poéticas que vêm das profundezas da obra.
Tomado como base da encenação a idéia vaga de “teatro estático”, colocada por Fernando Pessoa (obviamente influenciado pelo teatro simbolista francês do século passado e inicio deste), Ueliton fez com os atores importante trabalho analítico do texto. Desvendou-lhe significados e significâncias. Desceu ao fundo desmontando frases, questionando a teia de símbolos, chegando por fim ao núcleo da obra e dali trazendo para a superfície, na remontagem do texto, o pensamento arcaico (ou o universo mítico) sobre o qual se ergue o poema dramático de Fernando Pessoa.


O Marinheiro: Uma Aventura Interior(1993), de Fernando Pessoa. Ceronha Pontes(E) / Ana Angélica Almeida(C) e Lúcio Leonn. Direção\concepção Ueliton Rocon.


A idéia de “teatro estático”, reproduzindo os valores do teatro simbolista, é de uma encenação onde toda a força dramática se concentre na palavra; onde a ação física do ator se restrinja à expressão das emoções (já num princípio de expressionismo) com o mínimo de movimentos. E foi dentro desse conceito que Ueliton e os atores da Cia. de Teatro Lua buscaram os procedimentos adequados para construir a sua versão cênica de O Marinheiro.

O trabalho analítico sobre o texto deu aos atores farto material dramático para suas composições “estáticas”. E assim, a idéia de “teatro estático” e o próprio poema de Pessoa revelaram sua teatralidade oculta. Toda a ação subjetiva, pelo poder de concentração e de expressão dos atores, passou ao nível de percepção, fazendo com que eles, mesmo imóveis fluíssem, passando ao espectador a impressão de um virtual movimento.
A leve adaptação do texto possibilitou a introdução da figura do Marinheiro numa atmosfera onírica, quando as personagens (ou entidades dramáticas) que o invocavam submergiam no sonho ou sucumbiam ao espanto ante o desconhecido (Deus? Seria Deus o Marinheiro?). E quando uma das irmãs indaga se seria o Marinheiro fruto dos seus sonhos ou elas frutos dos sonhos dele, o texto (ou o verbo) oferece a chave de compreensão da obra e se casa com as imagens cênicas, dando realidade à sua irrealidade.
A bela encenação da Cia. de Teatro Lua deve ser vista acima de tudo, através das conceituações cênicas – todas elas claramente colocadas com o rigor da pesquisa e da discussão literária e filosófica da obra. Pode-se discordar de algumas soluções, mas não negar a inteireza do discurso a nível conceitual." (Grifos dos autores)

Elie Mario Dfeterius (grego)
&
Sebastião Milaré
(Júri do Festival)