A Secretaria de Cultura, Turismo e Desporto do Ceará,
encaminhou uma correspondência-convite para todos os artistas e demais
interessados, em participar do “I Simpósio Cearense de Artes Cênicas”(1989). Logo, na
gestão da secretária de cultura Violeta Arraes, o TJA encontrava-se fechado
para reforma e ampliação de anexos. E um plano de ação estava sendo pensado,
fazer jus a um programa inaugural de funcionamento do Theatro. Porém, das
atividades realizadas (palestras) no referido seminário, percebemos que foi somente
para atender ou preparar as expectativas de uma festa de reinauguração, ou
seja, agregar artistas, discutir e planejar um suntuoso espetáculo que em breve
seria realizado na cidade.
O Simpósio realizou-se no auditório do Conservatório de
Música Alberto Nepomuceno entre os dias 27 e 28 de dezembro de 1989, em dois
tempos integrados, das l7 às 19h e de l9h 30min às 22h. As inscrições foram
realizadas no Curso de Artes-Dramáticas da UFC-C.A.D, e na própria Secretaria
de Cultura do Estado-Secult, começando com 08 (oito) dias de antecedência.
A maioria dos artistas envolvidos procedência do Curso de
Arte-Dramática da UFC, e principalmente da “Oficina Théâtre du Soleil”,
realizada em l988¹.
Contudo, somente 13 (treze) entre os atores e atrizes que
participaram da também chamada oficina dos franceses (o número entra aqui como
uma coincidência) e não aqueles (13), selecionados para repasse de técnicas na
oficina realizada em Crato-Ce. Somente alguns deles continuaram com atividades
cênicas no espetáculo do palco principal, ou seja, no Projeto Teatro em Obras:
Theatro José de Alencar.
Além da promoção da Secult, contava o projeto com incentivo
da extinta Fundacen-Fundação Nacional de Artes Cênicas, seguido de apoio da
Federação Estadual de Teatro Amador/Festa, dos Grupos Permanentes de Dança,
como também do próprio C.A.D.
Dos debatedores neste seminário foram indicados, Amir Haddad
e Aderbal Freire-Filho, ambos diretores de teatro. O último, por sinal,
ex-aluno da 1ª turma de concluintes do CAD, hoje um diretor brasileiro de
renome.
Portanto, havia coordenadores também no trabalho reinaugural.
Tanto que fora apresentado no Auditório o tal projeto, isto é, conjuntamente
com os atores convidados, foi discutida e analisada a proposta, digo o objetivo
principal. Ele se transformou na festa em prol do Theatro José de Alencar, do
seu povo, da cidade e para com os seus artistas.
No entanto, conforme proposta estampada no folder do programa
estava escrito assim:
“Quando da reforma do
Theatro José de Alencar, teatro que guarda nossa história e nossos sonhos,
aproveitamos o momento para refletir sobre a nossa produção artística. O I
Simpósio Cearense de Artes Cênicas surge da necessidade de discutir o Projeto
Teatro em Obras, que objetiva reunir artistas locais para compor um plano de
reciclagem do movimento teatral cearense, ao mesmo tempo propiciar o
intercâmbio de informações, na área de Artes Cênicas, com outras regiões do
Brasil”(o grifo é meu. Documento pessoal).
Todos aqueles considerados artistas locais ou não passariam
por reciclagem(como escrito no Folder). Pergunto: Esta reciclagem seria antes dos preparativos para a
festa de reinauguração do Theatro José de Alencar? Aconteceu durante o processo
de montagem do espetáculo reinaugural ou, posterior a tudo? Indago tanto para o espetáculo realizado nas ruas do centro
da cidade como na Praça José de Alencar dirigido por Amir Haddad, e para
encenação de Aderbal Freire-Filho no palco principal. Não se teve tempo para
tal "capacitação". O tempo de montagem do espetáculo inaugural não permitia tal
sistematização. Portanto, contava-se com o "fazer-fazer" junto às cenas. Já os atores mais
experientes, estes sim, conseguiram perceber tal metodologia de trabalho. Como
apontarei logo abaixo, quando me refiro ao trabalho realizado no galpão da
RFFSA.
Então, contando com 02 (dois) dias em horários e datas acima,
nós atores e atrizes tivemos como tema no simpósio os seguintes aspectos em
debates:
“A capacitação do
Artista e sua Função Social”
“As Artes Cênicas no
Mundo Contemporâneo”
“O Significado Social
do Espetáculo”
“A Conjuntura Política
do Momento Brasileiro”.
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| Imagem documento original, 1989\ Acervo pessoal, Lúcio Leonn. |
Entretanto, no final do ano seguinte (1990), adentramos em
atividades teatrais. Tal imersão no jogo teatral acontecera no galpão da RFFSA.
Não aqueles hoje na Praia de Iracema, situados entornos do Centro Cultural
Dragão do Mar, mas aquele próximo à Praça da Estação, na Rua 24 de Maio, S/N,
no Centro da Cidade.
Sonho aquele da secretária de cultura Violeta Arraes em
querer transformar os galpões antigos em espaços culturais/interativos em nome
da cultura e de seus artistas locais, mas Violeta fez o que pôde.
Portanto, projetando o futuro nos arredores do Centro de Arte
e Cultura Dragão do Mar e seus anexos bem à la Française. Sem querer ser mais
uma vez, pejorativo. Embora, existam muitos galpões desativados que poderiam
funcionar caso houvesse apoio. Como foi o caso do Teatro Radical mantido pelo
teatrólogo, ator, diretor e professor Ricardo Guilherme e Associação de
Radicais Livres naquelas mediações, pois já não se freqüenta mais. Temos o
Teatro da Praia e o Espaço Cultural “Calango do Açude”, de Carri Costa; além do
Teatro da Boca Rica, da Cia. Boca Rica de Teatro. Mas, só quero aqui
sinalizá-los.
No entanto, no “Dragão”, ainda não se tem espaço para seus
atores ensaiar, ou até mesmo espaço de pesquisa para linguagem cênica. Além do
custo da pauta de apresentação ser uma das mais caras da cidade em nível
nacional-espaço este que se dizia ser democrático e solidário com a cultura e
artista local, bem pouco antes de sua criação e oficialização em 1999.
Pôde-se comprovar quando cursava o Curso Colégio de Direção
Teatral como aluno-intérprete no Instituto Dragão do Mar, pois era só o que se
ouvia falar. A 1ª Turma praticamente inaugurou o Teatro Dragão do Mar com
temporadas das peças: “Dragões no Horizonte I e II” (1998), em seguida mais
seis meses de casa lotada, com a peça “Os Iks” (1999), de Peter Brook, sob
direção de Celso Nunes.
Retomando ao ano de 1989... Lá no galpão (praticamente
extinto nas atividades culturais da cidade), vindo a funcionar em 2002, como
uma parte da exposição: “I Bienal Ceará América- de Arte Contemporânea”, o
grupo de atores do mencionado Projeto, estudava e planejava a literatura
cearense. Contava-se com 38 atores. Textos de Juvenal Galeno, Thomás Pompeu,
Rodolfo Teófilo, Antônio Sales, Moreira Campos e outros.
Tais textos literários passaram à ação dramática, através de
uma “découpage textual”. Isto mesmo, por parte dos atores, buscava-se a
narrativa do teatro épico: a terceira pessoa, as rubricas de ações, etc;
Outrora, preservava-se a interpretação na primeira pessoa, onde consistia viver
o personagem na sua situação dramática, quando não, falava-se dele (personagem)
expressando um certo distanciamento brechtiano, referindo-se ao uso do pronome
ele.
Tudo era rigorosamente acertado com a direção de Aderbal
Freire-Filho, nos trabalhos de mesa, como também, durante os ensaios e
levantamentos de cenas.
Essas análises, estudos experenciados em dias e horas,
conforme disposições do elenco resultaram no espetáculo noturno reinaugural
intitulado: “Narração da Viagem Pela Província do Ceará”, ou “Observações de
costumes, de usos, e até de palavras especialíssimas e de significação da
população do Ceará”- tendo estréia em 26 de janeiro de l991, ocupando todo o
palco principal do Theatro José de Alencar (ver Anexo 2- Elenco do espetáculo
de reinauguração do Theatro José de Alencar/TJA: palco principal (1991), (p.
90)².
Com a reinauguração do T.J.A, a Casa proporcionou,
posteriormente, uma abertura em séries de oficinas e cursos para aqueles que
não podiam contar na época em atender às próprias exigências do C.A.D, (diploma
do ensino médio, exame de seleção, etc), ou em outros cursos de instituições
particulares.
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Imagem documento original, 1989\ Acervo pessoal, Lúcio Leonn.
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Contudo, é através de inúmeros projetos governamentais a
partir de 1989 que se fizeram necessárias tal análise investigativa no campo
teatral, no que diz respeito à aprendizagem e ao ensino não somente no sentido
qualitativo, mas também no sentido de se ter um certificado válido. Foram
criados, no início desse século, no campo das Artes Cênicas do ator de
Fortaleza, projetos teatrais com raras exceções, sem grande importância quanto
à legitimação. Como tantas outras tentativas na criação de uma escola por meio
de projetos (Oficina Théâtre du Soleil, Projeto ECCOA, Projeto Encenação, Curso Colégio de Direção, etc),
pois muda-se de governo, mobiliza-se gestão! É ai, onde pode morar a
problematização. Quem “chega” deve olhar para o passado e perceber quem são os
grupos que produzem teatro, estes originados de projetos anteriores? Qual tipo
de assistência governamental, seus atores estão necessitando no mercado de
trabalho? Que identidade tem o teatro cearense ao longo de tantos anos? Como
tem sido a formação de seus atores, diretores?
Em minha opinião, tais gestores deveriam procurar atender e
compreender o que é básico, de mais urgente na arte teatral cearense. Pensar
assim diz respeito à legitimação, e “asseguramento” para atores, agentes de
teatro nos cursos de capacitação, ou formação profissional. Isto é, sem
deixá-los inseguros, por meio do mercado de trabalho formal. Ora pode
habilitá-los, atribuindo-lhes a função de professores de Arte ou
Arte-educadores conforme a nova legislação? (Lei de Diretrizes e Base da
Educação Nacional- LDB nº 9.394\96) É o que podemos ver adiante nesta pesquisa.
Logo tal artista de teatro, deve e pode também exercer sua profissão dignamente
e com respeito, como outras profissões estabilizadas no mercado.
Portanto, chamo atenção para aquilo que não está funcionando
corretamente. E traçar caminhos. Além de contribuir para possíveis resoluções.
Acho que pode ser viável.
Continuando... Após a reforma do TJA, passamos a ensaiar
nesse novo palco, enquanto que os espetáculos de Rua de Amir Haddad tornaram-se
mais atuante.
Podemos constatar isto em entrevista concedida ao Jornal
Diário do Nordeste, no dia 04.01.91, quando Haddad dizia: “... juntar ao ar
livre, o que a tradição oral imprimiu na cultura - de Maracatu a Reisado”.
Portanto, seu local de trabalho e pesquisa estava sendo a “rua”, (isto é, por
meio do chamado: “Treinamento de atores participantes das festividades de
Reinauguração do Theatro José de Alencar”, orientado também pelo “Grupo Tá na
Rua/RJ”, realizado no período de 18 a 26 de janeiro, com carga horária total de
36h/aula).
Finalmente, pode-se dizer que todos os atores e demais
profissionais engajados no Projeto Teatro em Obras receberam “cachê simbólico”
pelos serviços prestados.
A década de 1990 foi o cerne e principal objeto de estudo dessa
pesquisa. Dado o destaque para o ator em seu processo de formação teatral,
utilizando cursos, projetos, palestras e oficinas pós-reinaugural no TJA
(1991), que algumas vezes o autor deixou por aqui, entremear pelo discurso (IN Capítulo 2 - O teatro aprendiz no final da década de 1980, (pp. 41-44).).
Fonte: Fragmento da pesquisa: pós-graduação intitulada: Os
Processos de Formação Teatral em Fortaleza na Década de 1990 – Memórias de um
Ator, (2002).
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